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Surdocegueira: da mediação à guia-interpretação

 *Alex Garcia

Há alguns anos estou me deparando na Surdocegueira, através de minhas orientações a Surdocegos, educadores e famílias, que certas atribuições, estão sendo mal interpretadas e assim observo a relação causal do não desenvolvimento real de muitos Surdocegos no Brasil. A má interpretação que destaco diz respeito à mediação e a guia-interpretação para nós Surdocegos. Má interpretação obviamente que possui duas faces - o interesse e o desconhecimento. Não vou questionar neste momento o interesse, e, portanto não observarei aspectos políticos da Surdocegueira, mas sim, me deterei nas reflexões e abordagens específicas da mediação e guia-interpretação como fundamentais para nosso desenvolvimento.

A mediação em Surdocegueira

Sem dúvida, historicamente no Brasil, a grande barreira para nós Surdocegos tem sido a quase inexistência de mediadores capazes de colaborar de forma funcional com nossas primeiras interações com o meio, tendo em vista nossa condição de Surdocegos. O contato habitual de certas pessoas com o Surdocego pressupõe que elas sabem os efeitos que tem a comunicação para nós. Sabendo isso esta pessoa pode e deve agir como mediador em ocasiões específicas e gerais, sempre buscando satisfazer a necessidade de interação que se produz naturalmente em nós Surdocegos tendo em vista nossa condição. Esta questão obviamente deve sempre trazer duas básicas reflexões: primeiro se és mediador deve se manter como tal e segundo que o mediador pode ser um familiar e profissional de outras áreas, mas devem estar de fato, unidos com o Surdocego neste papel de mediação compreendendo que a mediação e a interação que desta resulta deve ser ao máximo possível, pontual e útil ao Surdocegos. Estas duas reflexões que acabo de destacar são fundamentais no processo de mediação. Tão importante que é nelas e em sua real compreensão que repousa a "ineficiência" da mediação para Surdocegos no Brasil.

O mediador e a mediação

O mediador é aquela pessoa que conhece os meios de comunicação e juntamente com o Surdocego, colabora com a interação prática deste com o meio. "O mediador e sua forma de agir é uma resposta direta aos atos e necessidades da Pessoa Surdocega e ao tipo de apoio que esta precisa em cada momento" (Mclnnes, 1999). Mclnnes, 1999, também define a mediação "como um processo que tem como propósito permitir que o Surdocego estabeleça e mantenha um domínio máximo sobre o meio de acordo com o nível de sua capacidade física e seu nível de funcionamento sendo um processo que tem lugar entre o surdocego e a pessoa que apoiadora, no qual a deficiência provocada pelas perdas de visão e audição se minimiza". Assim a mediação possui características dinâmicas que tem por objetivo romper com o isolamento do Surdocego observando-se as questões específicas:

- Surdocegos pré-simbólicos (congênitos) precisam receber uma mediação essencial para que desenvolvam linguagem, comunicação e fluidez em uma língua. É comum no Brasil encontramos Guias-intérpretes (este tema será abordado posteriormente) atuando como mediadores destes Surdocegos. Pensa-se equivocadamente que o conhecimento de modelos alternativos de comunicação do guias-intérpretes irá favorecer, o que de fato não acontece, pois nestes casos não se trata de capacidade comunicativa, mas sim, de capacidade lingüística (signos, símbolos e significados).
 
- Surdocegos pós-simbólicos (adquiridos) precisam receber uma mediação como apoio para a adaptação, ou seja, adaptar-se a sua nova condição de Surdocego e fundamentalmente aprender um novo modelo de comunicação.
 
O mediador, tendo o papel de intérprete, de guia, de educador, acaba por se tornar companheiro, objetivando sempre que os Surdocegos cheguem a serem capazes de fazerem escolhas e tomar suas próprias decisões de acordo com seus níveis de independência, intervindo sempre dentro de um programa organizado para atender pessoas Surdocegas e que se envolvem outros profissionais, assim o mediador apóia todo tipo de Surdocego de acordo com a mediação necessária, caso a caso.

A Guia-interpretação
 
Logo depois de abordar resumidamente a mediação é necessário destacar a guia-interpretação. Esta claro que abordar estes dois temas em separado significa dizer que são matérias diferentes, mas, de suma importância para os Surdocegos.
 
O Guia-interprete e sua atuação

O Guia-interprete é aquele profissional que serve de canal de comunicação (audiovisual) entre o Surdocego e o meio no qual ela está interagindo e tem como papel fundamental compreender a mensagem em uma língua, extraindo o sentido através do conteúdo lingüístico e contextualizar o sentido na língua de destino. Também descrever o que ocorre em torno da situação de comunicação e facilitar o deslocamento e a mobilidade do Surdocego no meio. Sua intervenção pressupõe que o Surdocego possua capacidade para fazer julgamentos e tomar decisões, o que significa dizer que, atua com Surdocegos que possuem uma língua, consequentemente, possuem domínio de um modelo de comunicação receptivo. É este profissional muitas vezes, responsável pelo ato de Guia-interpretação que permite a nós Surdocegos, irmos onde queremos e entender e nos fazer entender. Para isso domina diferentes modelos de comunicação, em especial, o modelo do Surdocego que está a Guia-interpretar no momento específico. O Guia-interprete geralmente conhece os aspectos gerais da Surdocegueira como matéria científica e técnicas de interpretação e de guia.

Técnicas de Interpretação

Os Guias-interpretes embasam sua atuação em duas Técnicas de Interpretação - a tradução e a Interpretação. Na primeira significa dizer que a mensagem transmitida em uma determinada modalidade de uma língua é mudada para outra modalidade mantendo-se a mesma língua. Portanto, traduzir neste contexto, não é trabalhar com duas línguas, mas sim com duas modalidades na mesma língua. Como exemplo, podemos citar uma mensagem transmitida através da fala e em português. Língua portuguesa na modalidade oral e sendo transmitida ao Surdocego através do Braille tátil ou escrita na palma da mão. Mantém-se a mesma língua e altera-se a modalidade, portanto tem-se a tradução em desenvolvimento.

Na Interpretação acontece o contrário, ou seja, a mensagem transmitida em uma determinada língua é mudada para outra língua não importando a modalidade usada. Portanto, Interpretar neste contexto, é trabalhar com duas línguas. Como exemplo, podemos citar uma mensagem transmitida através da fala e em Inglês. Língua inglesa na modalidade oral e sendo interpretada ao Surdocego através do Braille tátil ou escrita na palma da mão em português, ou a mensagem em português oral interpretada em Libras, portanto tem-se a Interpretação em desenvolvimento.

Ao Guia-intérprete é aconselhável possuir fluência em pelo menos duas línguas e conhecer o modelo de comunicação usual de determinado Surdocego que está a apoiar para que possa desempenhar satisfatoriamente seu papel.

Técnicas de Guia

São várias as técnicas utilizadas pêlos Guias-interpretes para que os Surdocegos se locomovam com segurança nas mais diversas situações. Estas técnicas merecem uma abordagem especial em outra ocasião, assim, neste momento, oportuno destacar que muitas destas técnicas são as mesmas usadas para a mobilidade das Pessoas Cegas, sendo a principal diferença que os Surdocegos possuem dificuldades muito superiores de antecipação. A antecipação é um aspecto relevante para a mobilidade. A antecipação dos Surdocegos acontece de forma mais lenta do que nos Cegos pelo fato essencial da comunicação ter características proximais e não de distância, ou seja, os Cegos podem ouvir e assim podem receber a antecipação através do modelo de comunicação fala e os Surdocegos recebem a antecipação através de modelos de comunicação táteis ou através de mínima distância.

A descrição visual

Estas técnicas permitem ao Surdocego compreender melhor o ambiente em que está inserido. Abrangem a descrição, disposição e movimentação de objetos e pessoas presentes no meio. A descrição visual feita pelo guia-intérprete é importante para nossa tranqüilidade. Precisamos saber da movimentação ao nosso redor para evitarmos "acidentes" e assim certo constrangimento.

Ética e Guia-interpretação

Aqui temos uma matéria relevante que talvez esteja entre os principais obstáculos à efetiva funcionalidade dos Guias-interpretes. Falar de ética e Guia-interpretação é falar sobre respeito às dimensões. Nós Surdocegos, assim como outros seres humanos, temos nossos valores, nossa afetividade, intelectualidade, desejos e costumes. Assim os Guias-interpretes, através de sua ética valorativa das dimensões do Surdocego devem desenvolver aspectos de confidencialidade e imparcialidade, fidelidade e exatidão, seletividade e discrição.

Confidencialidade e imparcialidade

São aspectos bastante próximos. Ser confidente significa dizer que o Guia-intérprete é o "Canal de comunicação". Não pergunta e não responde pelo Surdocego. Sendo imparcial o Guia-intérprete deve abster-se de expressar suas próprias opiniões sobre o conteúdo da comunicação que está se desenvolvendo. É importante lembrar que muitas vezes é difícil a um Guia-intérprete ser totalmente imparcial. Verdade! Nossa cultura muitas vezes coloca os Guia-intérpretes em situações conflituosas, principalmente quando envolve familiares de Surdocegos.

Fidelidade e exatidão

O Guia-intérprete deve transmitir a mensagem do emissor ao receptor sem omitir ou distorcer a mesma. É comum neste caso acontecerem problemas de omissão-distorção quando o Guia-intérprete, muitas vezes por motivos de tempo, faz abreviações. Estas abreviações, alguns Surdocegos, podem entender como omissão-distorção principalmente se este não possui uma bagagem lingüística abrangente capaz de fazer relações de análise-síntese e também reflexões contextuais com rapidez.

Seletividade

O Guia-intérprete deve aceitar o trabalho que está apto a realizar e recusá-los se estiver acima de suas capacidades ou demandar um período de tempo de que não dispõe e também quando a interpretação for contra suas convicções religiosas e éticas. Observa-se que nesta questão de seletividade é fundamental o que chamaria de pré-interpretação, ou seja, uma análise prévia de onde, como e quando acontecerá o trabalho. Esta pré-interpretação, realizada abertamente pelo dueto - Surdocego e Guia-intérprete - terá por finalidade estabelecer acordo de cooperação. Não raro são as vezes que problemas acontecerem por "descumprimento de acordo" alegando-se, por exemplo, o período de tempo e convicções éticas.

A discrição

E por último a discrição que se refere à pontualidade, humildade e bom senso.

Conclusão

Ao concluir esta contribuição gostaria de destacar que na Guia-interpretação é importante à objetividade na relação. Ser objetivo é sem dúvida a tarefa mais difícil para Guia-intérpretes, pois, significa dizer que as suas subjetividades devem permanecer ocultas. Outro aspecto é o concreto. O que quero dizer com "concreto"? Em uma Guia-interpretação é comum descreverem a nós Surdocegos imagens e acontecimentos. Esta descrição permanece em nossa mente como uma "imaginação" e assim nossa curiosidade do real aflorasse, assim, sempre e na medida do possível os Guias-interpretes devem promover o conhecimento do concreto a nós Surdocegos. Se por exemplo descreverem a nós um belo jardim, procure nos guiar até este jardim para que possamos ver de perto (para aquele Surdocego que ainda possui resíduo de visão) e tocar as flores e plantas (para aquele Surdocego que não possui resíduo de visão) e também sentirmos o perfume das flores. E sempre lembrando que quando um Surdocego requer o apoio de Guias-interpretes não é a mesma situação que um Surdo requerer um Intérprete e porquê? Para muitos Surdocegos receber o apoio de Guia-intérpretes significa dizer que este terá a oportunidade de se comunicar com alguém que conheça seu modelo de comunicação. A oportunidade de ter este apoio muitas vezes tarda meses e meses e muitos Surdocegos permanecem todo este tempo em seu mundo, muitas vezes sem som e luz. Todas as reflexões que fiz neste artigo devem ser refletidas "no seio" desta situação. Refletir esta solidão por meses e meses de um Surdocego e assim termos bom senso e sensibilidade de observarmos a "ansiedade" de muitos Surdocegos para com as relações comunicativas.

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* Pessoa Surdocega. Presidente da Agapasm (www.agapasm.com.br). Especialista em Educação Especial. Vencedor II Prêmio Sentidos. Rotariano Honorário - Rotary Club de São Luiz Gonzaga-RS. Líder Internacional para o Emprego de Pessoas com Deficiência. Professional Program on International Leadership, Employment, and Disability (I-LEAD) Mobility International USA - MIUSA. E-mail: contato@agapasm.com.br Currículo: http://lattes.cnpq.br/4055194419684987

 

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